Preste João
Preste João, gravura veneziana do século XVI
Preste João
O Preste João foi um lendário soberano cristão do Oriente que detinha funções de patriarca e rei, correspondendo, na verdade, ao Imperador da
Etiópia. "Preste" é uma corruptela do francês Prêtre, ou seja, padre. Diz-se que era um homem
virtuoso e um governante generoso. O reino de Preste João foi objecto de uma
busca que instigou a imaginação de gerações de aventureiros, mas que sempre
permaneceu fora de seu alcance.
No seu reino condensam-se o
reino cristão-monofisita da Abissínia e os cristãos nestorianos da Ásia Central. Diz-se
também que era descendente de Baltasar, um dos Três Reis Magos. Como
notícias palpáveis desse império cristão eram escassas, dilatava-se a fantasia
em redor do seu reino: falava-se de monstros vários (entre os quais os homens
com cabeça de cão), paisagens edénicas, etc. O Inferno e o Paraíso num só território.
No O Livro Das Maravilhas, de Marco Polo, Preste
João era na Verdade Ong-Cã, rei dos Turcos Oengut da Mongólia, pois a Igreja Nestoriana penetrou na
Ásia Central e foi até a
Manchúria e vários
desses povos eram cristãos nestorianos e sacerdotes hereditários.
As notícias (em forma de lenda) do Preste João chegavam à Europa pela boca de embaixadores, peregrinos e mercadores, sendo depois confirmadas pelo infante D.
Pedro, que viajara "pelas sete partidas do mundo", e ainda pelo seu
inimigo D. Afonso, conde de Barcelos, que fizera peregrinação à Terra Santa.
Em 1487, D. João II envia Afonso de Paiva para
investigar a localização do mítico reino (que corresponde à atual Etiópia) na tentativa de torná-lo aliado numa possível expedição para a Índia, em fase de planeamento.
Embora tenha morrido antes de comunicar o relatório, Pêro da Covilhã — que o
tinha acompanhado até se separarem e este ir fazer um reconhecimento da Índia — iria mais tarde completar a sua missão. Foram os relatos de Pêro da
Covilhã a Francisco Álvares que permitiram saber muito da história que este último descreve no seu
livro Verdadeira Informação das Terras do Preste João
das Índias.
Trajetória
de um Mito
Em 1145, um bispo armênio de Jabala chega à sede do papado com a
notícia da conquista do condado de Edessa (1144) pelos muçulmanos. O bispo receava que o ocorrido colocaria em
risco as comunidades cristãs do Oriente e apelava para que os cruzados não
abandonassem suas posições na Terra Santa.[1].
Segundo o religioso, um rei
cristão, de nome João, cujo reino se localizava na Ásia, para além da Pérsia, marchava para o Ocidente à
frente de um exército que já tinha derrotado vários muçulmanos pelo caminho.
Entretanto, atingidos por uma epidemia, o rei e seus homens haviam sido
obrigados a retornar a seu país, mas voltariam para salvar o reino cristão de Jerusalém.[1] DEUS
EHapoia no registro da visita do bispo de Jabala, registrada pelo sacerdote
alemão, Otto de
Freising (c. 1114–1158) como um episódio verídico que conta sobre um exército
muçulmano, em 1141, formado por guerreiros turcos seljúcidas que foi
derrotado na Ásia Central, não por um rei cristão, mas pela tribo mongol Kara-kitai oriunda de uma região vizinha à China. Esse grupo era budista, mas a presença de cristãos nestorianos [nota 1] contribuiu
para o nascimento da lenda.[1].
A lenda se espalha pela
Europa. O anúncio do bispo armênio trouxe à tona cartas supostamente assinadas
por Preste João e endereçadas ao Papa Alexandre III; a Frederico I, Sacro Imperador Romano-Germânico; ao rei Luís VII da França;
e a Afonso Henriques, rei de Portugal. Essas mensagens asseguravam ao Preste João domínios
territoriais que se estendiam às "Três Índias" e a vários outros
países, além de dezenas de reinos a ele subordinados, entre os quais as dez
"tribos perdidas de Israel", que Alexandre, O Grande, teria perdido atrás da Muralha de Gog e Magog. Segundo as
cartas do Preste João, quando ele partia para a guerra levava com ele dez
cruzes de ouro ornadas com pedras preciosas e atrás de cada uma delas marchavam
dez mil cavaleiros e cem mil homens a pé. [1].
Ainda segundo as cartas,
Preste João dizia ser proprietário de uma fonte da juventude que fazia com que
qualquer homem que nela se banhasse voltasse a ter 32 anos e contava que ele
próprio, aos 562 anos de idade, havia se banhado muitas vezes naquelas águas.
Afirmava também que um reino de Israel lhe enviava, anualmente, um tributo de
200 cavalos carregados de ouro e pedras preciosas. [1].
Essas fábulas eram levadas a
sério pelos homens da Idade Média, e quanto
mais alimentava a pressão do Islã sobre a Terra Santa, mais a crença na existência do Preste João ganhava
força na Europa. Ninguém sabia exatamente onde ficava o reino de Preste João.
Apenas se supunha que essas terras deviam estar em algum ponto do Extremo
Oriente. Para o frei franciscano Giovanni da
Pian del Carpine, o rei era Mohammed, o "sultão de
Karezm". O monge e cronista Guilherme de Rubruck, afirmava que Preste era o chefe de um grupo mongol, os naimanos.
Já Marco Polo acreditava
que o misterioso rei era o líder da tribo turca, "ongut", originária
da região nascente do Rio Amarelo.[1]
O "verdadeiro" reino
de Preste João
Com a expansão do império de Gêngis Khan no século
XII, e com a intensificação dos contatos entre Ocidente e Oriente, monges e
mercadores cristãos constataram que o "verdadeiro" reino de Preste
não ficava na Ásia Central, nem no Extremo Oriente, mas na Índia[nota 2], onde a
cristandade europeia passou a procurá-lo. Era a época das antigas comunidades
de cristãos indianos, chamados "seguidores de São Tomé".[1].
A "hipótese indiana"
era respaldada por viajantes que afirmavam ter encontrado um soberano cristão
no norte da Índia, na corte de Tamerlão. A existência de um império etíope já era
conhecida pelos ocidentais graças aos monges africanos que visitavam Jerusalém
e às cartas enviadas ao papa "negus", sacerdote etíope e soberano
daquele reino. Esse império também é citado por frei Jordano de
Sévérac, bispo da costa do Malabar. Foi quando
a ideia de que a Etiópia poderia ser o reino do misterioso Preste João,
realçada depois que uma embaixada enviada pelo "negusa nagast" (negus
da Etiópia) chegou à corte papal de Avignon, ganhou força (1310). Esse movimento reforçou a
hipótese da existência, "em algum lugar do nordeste da África", de um
reino em guerra com os muçulmanos. Os europeus queriam se aliar a Preste João
para enfrentar os muçulmanos. Havia, porém, dificuldade de localizar o
misterioso rei e sacerdote.[1].
Os navegadores portugueses, ao
desembarcarem na costa da África (1486), em busca de uma rota para as Índias,
ouviram dos "notáveis" do reino do Benin que o grande rei "Ogané", a quem deviam lealdade, reinava a
"vinte luas de marcha para o norte, ao sul do Egito". Ao ouvir esse
relato, o rei João II de Portugal
enviou dois homens ao rei Ogané, certo de que ele era Preste João.[1].
Os lusos, Pero de Covilhã e Afonso de Paiva, junto com
uma soma em dinheiro levaram um planisfério para marcarem o local exato do
reino misterioso. Em 7 de março de 1487 partiram. Somente Covilhã chegou ao
destino. Desembarcou em Zeila, antigo porto etíope,
seguindo pelo interior até Gondar. Covilhã foi recebido pelo
"negus" Alexandre, Leão de Judá, "Rei dos Reis".[1].
Assim como Preste João, o
imperador etíope governava um reino que no passado havia dominado a costa
oriental da África e que, com a expansão do Islã, fora empurrado para o
interior do continente e resistiram durante séculos aos ataques muçulmanos. Com
a morte do "negus" Alexandre, o seu filho e sucessor, Naod, convidou
Covilhã a permanecer no reino.[2]. Covilhã
aceitou a proposta de receber morada e esposa etíope, com quem teve filhos.
Vinte anos depois (1520), uma nova embaixada portuguesa foi enviada à Etiópia.
Na partida, Covilhã se recusou a seguí-los e permaneceu até a morte, segundo
relato de um dos integrantes dessa nova embaixada, o padre Francisco Álvares,
em seu "Verdadeira informação das terras do Preste João das Índias".
Foi a partir daí (século XVI) que o lendário rei deu lugar a um soberano real,
aliado aos portugueses na disputa travada com os muçulmanos pelo controle das
rotas comerciais do mar Vermelho.
A aliança, entretanto, era
frágil. O exército do rei etíope era equipado com armas brancas. Já os
muçulmanos possuiam arcabuzes e canhões fornecidos pelos turcos, que se aproximavam
cada vez mais pelo mar Vermelho. Os portugueses tiveram dificuldade para barrar
esse avanço. Os etíopes foram derrotados e obrigados a se refugiar nas
montanhas. Ameaçados e sem recursos pedem ajuda aos portugueses que
desembarcaram (1541) com uma tropa de 400 homens armados com canhões,
comandados por Cristóvão da Gama. Os lusos vencem os muçulmanos, mas são derrotados quando sofrem contra
ataque islâmico e perdem metade da tropa, incluindo aí o comandante. Os
sobreviventes reuniram então os camponeses etíopes sob o comando do jovem
"negus" Galawdewos (Cláudio) e saem vitoriosos sobre os
muçulmanos em 21 de fevereiro de 1543.[3]
Numa inversão da lenda, os
europeus salvam o rei Preste João pondo um fim à busca mítica. Na questão da
fé, a situação também se inverteu. A inquisição portuguesa enviou jesuítas à
Etiópia para averiguar as práticas religiosas do Preste João e qualificou o
monarca e seus seguidores de hereges. O "negus", porém recusou a
conversão ao catolicismo. Em 1634, os últimos jesuítas foram expulsos da Etiópia
pondo fim a 140 anos de relação amigável entre o império etíope e Portugal.[1].

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