Geografia mitológica
Por
uma geografia mitológica: a lenda medieval do Preste João, sua
permanência, transferência e “morte”
Ricardo da Costa (Ufes)
In: História 9. Revista do Departamento de História da UFES.
Vitória: Ufes, Centro de Ciências Humanas e Naturais, EDUFES, 2001, p. 53-64 (ISSN 1517-2120).
In: História 9. Revista do Departamento de História da UFES.
Vitória: Ufes, Centro de Ciências Humanas e Naturais, EDUFES, 2001, p. 53-64 (ISSN 1517-2120).
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Se abriram as cortinas e subitamente
vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus.
Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava
uma cruz de prata (...) À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata
bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda
com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma
bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até
o chão (...) Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso
personagem que é.
( Francisco Alves, embaixador português enviado à Etiópia, século XVI)
( Francisco Alves, embaixador português enviado à Etiópia, século XVI)
Iluminura do Wappenbuch de Conrad Grünenberg (Constance, 1480). München, Bayerische
Staatsbibliothek, Cgm, 145, p. 53).
I. O nascimento do mito
A queda da cidade de Edessa, na
Palestina (1144), após um cerco de vinte e oito dias efetuado por Imad ed-Din
Zengi (general do sultão Mahmud), foi o principal motivo da pregação da Segunda
Cruzada na Europa. O banho de sangue que se seguiu à conquista causou comoção
nos líderes europeus. O cronista árabe Ibn al-Qalãnisi relatou o fato:
Começaram então o saque e a matança, a
captura e a pilhagem. As mãos dos vitoriosos se encheram de dinheiro e tesouro,
cavalos e presas de guerra o suficiente para alegrar e fazer com que as almas
se regozijassem (al-Qalãnisi, 279-80) (GABRIELI, 1984: p. 50).
Hugo, bispo de Jabala, foi enviado como
embaixador pelo reino de Jerusalém e o principado de Antioquia para tratar com
o papa Eugênio III (pisano, 1145-1153) — que se encontrava em Viterbo, pois
Roma estava em poder de um grupo hostil ao papa — a possibilidade de uma nova
cruzada. Em Viterbo também se encontrava Oto Babenberger, alemão, bispo de
Freising e tio de Frederico I Barba-Ruiva, imperador do Sacro Império
Romano-Germânico (1152-1190). Oto registrou em sua Chronica a notícia, mas
estava na cúria papal com o objetivo de notificar a Eugênio III a existência de
um potentado cristão na Ásia, mais precisamente na fronteira com a Pérsia, que
fazia então uma guerra vitoriosa contra o mundo árabe (RUNCIMAN, 1973: p. 229).
O rei deste reino maravilhoso, que
triunfava numa segunda frente de batalha contra o Islã num momento em que todos
fracassavam, chamava-se Preste (padre) João. Era nestoriano, portanto herético
— a controvérsia nestoriana foi um cisma cristológico provocado pela culminação
da escola antioquiana de teologia nas obras de Nestor (c. 381-451), patriarca
de Constantinopla em 428-31. Nestor considerou que Cristo tinha duas naturezas
(duo physeis) mas isso não fazia dele dois Filhos, pois as naturezas
distintas estavam unidas numa conjunção voluntária. Essa concepção forçou
Nestor a argüir contra a atribuição a Maria do título de "Mãe de
Deus"(Theotokos, portadora de Deus). Para ele; o termo era
impróprio porque ela tinha gerado apenas um homem a quem o Verbo de Deus estava
unido (LOYN, 1990: p. 272).
Mas que importava? Um aliado, herético
mas cristão, vencendo em outra frente de batalha, minando o inimigo, o “outro”,
alimentando as esperanças de uma vitória final da verdadeira fé. Seu exército
era imenso: sua carta, destinada apenas a “Nossa Majestade”, afirma que sua
milícia levava “treze grandes e altas cruzes, feitas de ouro e de pedras
preciosas (...) e a cada uma delas seguem dez mil soldados e cem mil peões
armados” (Carta do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p.
82). Com este poderoso exército, Preste João teria conquistado Ectabana,
capital persa, dirigindo-se então para o norte, quando então regressou a seu
país.
Foi dessa forma que o mito de Preste João
"entrou" na História, ou seja, pelas mãos de Oto de Freising. O bispo
foi além: já na corte de Frederico I Barba-Ruiva, provavelmente falsificou uma
carta, que teria sido enviada em 1150 por Prestes João ao imperador bizantino
Manuel I Comneno (1143-1180), ao papa e ao próprio Frederico I Barba-Ruiva.
A notícia dessa suposta carta que
contava as maravilhas do reino de Preste João espalhou-se pela Europa. Até o
século XV foram feitas várias traduções e cópias. Suas diferentes versões
descrevem as maravilhas de seu reino. Jóias corriam nos rios, o palácio do
Preste João abrigava 30.000 pessoas à mesa, todos os dias “...não contando com
os forasteiros que chegam ou partem. E todos eles recebem em cada dia, da nossa
câmara, ajudas de custo quer em cavalos quer em outras espécies” (Carta
do Preste João das Índias. Versões Medievais Latinas, 1998: p. 82).
Seu palácio era ricamente decorado.
Teto de cedro, cobertura de ébano, em seu cume dois pomos de ouro, portas de
sardônica, janelas de cristal, mesas de ouro e ametista com colunas de marfim.
Além disso, existiam seres fantásticos: “bois selvagens, sagitários, homens
selvagens, homens com cornos, faunos, sátiros e mulheres da mesma raça,
pigmeus, cinocéfalos, gigantes, cuja altura é de quarenta côvados, monóculos,
ciclopes e uma ave que chamam fénix e quase todo o género de animais que
existem debaixo do céu.” (Carta do Preste João das Índias, p. 56)
Preste João tinha um aspecto jovem,
“apesar de ter então 562 anos de idade” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40), porque
banhava-se na própria Fonte da Juventude. A carta situa a Fonte
num bosque, no sopé do monte Olimpo, não muito longe do Paraíso “de onde Adão
foi expulso”: “Se alguém beber em jejum três vezes dessa fonte, a partir desse
dia nunca mais sofrerá de qualquer doença e será sempre, enquanto viver, como
se tivesse trinta e dois anos de idade” (Carta do Preste João das Índias, p.
64-66).
Quando atingiam os cem anos de idade,
os homens rejuvenesciam bebendo da água da Fonte, até completarem 500
anos, quando então morrem, e, por tradição, são enterrados juntos de árvores
que possuem folhas que nunca caem e são duríssimas. “A sombra dessas folhas é
agradabilíssima e os frutos dessas árvores de suavíssimo odor” (Carta do Preste
João das Índias, p. 68).
Em seu reino estava também a Árvore
da Vida, que fazia fronteira com o Paraíso, a apenas um dia de distância.
“Porém ela era guardada por uma serpente duas vezes maior que um cavalo, tendo
ainda nove cabeças e duas asas. Vigilante o tempo todo, ela dormia apenas no dia
de São João Batista, quando se podia recolher o bálsamo que a árvore produz e
do qual se faz o crisma, o óleo sagrado” (FRANCO JR., 1992: p. 39-40). Ela
representava o próprio Preste João porque “...tal como essa árvore ultrapassa
as outras em fruto e aroma, do mesmo modo a nossa pessoa neste mundo não tem
semelhante nem igual.” (Carta do Preste João das Índias, p. 114-116).
Neste reino maravilhoso não havia
corrupção, guerras ou violência, o mal inexistia: “Entre nós não existem
pobres. Não existe entre nós nem roubo nem rapina, nem o adulador ou o avaro
têm lugar aqui. Não há disputa entre nós. Os nossos homens abundam em todas as
riquezas.” (Carta do Preste João das Índias, p. 76).
Seus súditos eram abençoados por terem
um rei tão maravilhoso. A similitude com Salomão é clara: “A população de Judá
e de Israel (...); comiam, bebiam e viviam felizes” (l Rs, 4,20). Preste João
proclamava-se imperador de 72 reis na Ásia — o número 72 era uma analogia a
Isidoro de Sevilha: “De fato, segundo a autoridade de Isidoro de Sevilha, o
mundo é formado por 72 povos (44: IX, 2, 2), e Preste João afirma na sua carta
governar 72 províncias, cada uma delas tendo um rei que lhe é tributário
(FRANCO JR., 1992: p. 39-40): “Setenta e dois reis são nossos tributários (...)
Setenta e duas províncias nos prestam vassalagem” (Carta do Preste João das
Índias, p. 54).
Dessa maneira, não é de surpreender
que, em 1177, o papa Alexandre III (sienês, 1159-1181) tenha enviado como
embaixador para o reino de Preste João seu médico particular, Felipe,
solicitando ajuda contra os muçulmanos. A Igreja já nesse momento, também
enxergava a possibilidade de se apropriar do mito. Ao que parece, Felipe terminou
sua missão na Abissínia sem nenhum resultado (RUNCIMAN, 1973: p. 382).
Mas qual o interesse do bispo Oto de
Freising para divulgar um rei lendário, um reino fantástico e falsificar esta
carta? Devemos buscar no contexto político germânico da época as causas da
atitude do bispo alemão. Em primeiro lugar, as lutas internas no Império entre guelfos
e gibelinos — guelfo — de Welf, ou Guelf, tio do duque Henrique
da Baviera, que se opôs à eleição de Conrado III da Suábia, o primeiro da
dinastia dos Hohenstaufen; gibelino — de Waiblingen, aldeia pertencente
aos Hohenstaufen. Mais tarde, na Itália, com as campanhas de Frederico contra a
Liga Lombarda, guelfo passou a designar os partidários do papa, e gibelino os
partidários do imperador.
Outra questão importante era a disputa
entre Frederico e o papa Alexandre III (poder temporal x poder espiritual) —
que tinha suas origens na Questão das Investiduras — uma grande crise
que assolou as relações entre o Império e o Papado, e, na verdade, entre a
Igreja e as Monarquias européias de um modo geral, no período de 1075 a 1122 (Investidura
— ato físico de investir um clérigo com as insígnias do cargo). Todas estas
questões faziam do mito de Preste João um importante instrumento político nas
mãos de Frederico (FRANCO JR., 1994), como veremos.
Como imperador, Frederico também
detinha o título de rei da Lombardia. Resolvendo assumi-lo literalmente, enviou
a cada uma das cidades lombardas italianas um podestàs — representante
imperial — para governar em seu nome. O papa Alexandre III, com receio pelos
direitos temporais do papado, excomungou-o (1160). A Liga Lombarda
(composta pelas seguintes cidades: Verona, Bolonha, Milão, Vicenza, Treviso,
Pádua, Mântua, Bréscia, Cremona, Ferrara, Bérgamo, Parma, Módena e Piacenza),
criada em 1167 após a tomada de Milão por Frederico (o imperador arrasou a
cidade, incendiando-a totalmente), venceu o exército germânico em Legnano
(1176), obrigando-o a se reconciliar com o papa e assinar um tratado
restituindo o governo próprio das cidades italianas (Tratado de Constança,
de 1183).
O imperador necessitava de um apoio
espiritual superior ao papa, um suporte mental que desse legitimidade às
suas pretensões de um grande Império contra o poder papal (DUFFY, 1998:
p.108-109). Preste João era a oportunidade que Frederico estava esperando.
Através de uma série de confluências mitológicas, o imperador construiu
uma “ponte” com Preste João, que, por sua vez, desembocava em Cristo. De que
forma?
Preste João tinha elementos que o
projetavam até o nascimento de Cristo, mais especificamente na figura dos três
reis magos, que, numa tradição oriental, seriam seus ascendentes diretos
(FRANCO JR., 1994). Devemos então observar a ligação dos magos com Cristo.
II. Os três Reis Magos e Jesus
Cristo
Na tradição bíblica, o encontro dos
magos com Jesus se encontra no Evangelho de Mateus: “Tendo Jesus nascido
em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a
Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito,
vimos a sua estrela no céu surgir e viemos homenageá-lo”(Mt 2, 1-2).
O diálogo narrado se deu entre os magos
e Herodes. Alarmado, Herodes ordenou aos magos que se certificassem do
nascimento. Maravilhosamente, a estrela os conduziu à casa de Jesus: “Eles,
revendo a estrela, alegraram-se imensamente. Ao entrar na casa, viram o menino
com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o homenagearam. Em seguida, abriram seus
cofres e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho que
não voltassem a Herodes, regressaram por outro caminho para a sua região” (Mt.
2, 10-12).
O onírico novamente interfere nas ações
humanas. Os magos, “do Oriente”, região por excelência “dos sábios astrólogos”,
ofereceram os presentes paradigmáticos do “outro” mundo: ouro, incenso e mirra.
Para os Padres da Igreja, simbolizam respectivamente a realeza, a divindade e a
paixão (A Bíblia de Jerusalém, 1991: p. 1.839).
É interessante observar que apenas
Mateus descreve o encontro com os magos. Marcos e João nada dizem; Lucas fala
na presença de pastores (Lc, 2, 1-20). Essas diferenças podem ser
historicamente explicadas? (MEIER, 1992: p. 205-230). Possivelmente não. Por
exemplo, salta aos olhos que em sua obra Joseph Meier não comente ou tente
explicar a ausência dos Três Magos nos outros Evangelhos sinópticos.
Mas o mais importante neste ensaio é
identificar o momento em que os magos entraram na casa de Jesus:
simultaneamente. Esta tradição bíblica difere significativamente de outra
tradição, oral, apócrifa, fixada por Marco Polo (1254-1324) em seu Livro das
Maravilhas. Nele, Polo encontra seus túmulos, dá seus nomes (que não
constam do Evangelho segundo São Mateus) — Baltazar, Gaspar e Belchior —;
identifica a cidade de onde partiram para adorar o menino Jesus (“Sava”, atual
Saveh, cem quilômetros a sudoeste de Teerã) (MARCO POLO. O Livro das
Maravilhas, p. 64).
Por fim, narra o momento de encontro:
Chegando ao local onde havia nascido o
Menino, o mais novo daqueles reis saiu da caravana e foi sozinho vê-lo, e
verificou que era parecido consigo próprio, pois tinha a sua idade e estava
vestido como ele; ficou assombrado o Rei Mago.
Logo a seguir foi o segundo Rei Mago, que era de meia-idade, e certificou-se do mesmo; aumentava a surpresa deles.
Finalmente foi o terceiro rei, que era o mais velho dos três, e sucedeu-lhe aquilo que tinha sucedido aos outros. Ficaram muito pensativos. Quando se reuniram, contaram uns aos outros o que tinham visto e maravilharam-se todos.
Decidiram, então, ir os três ao mesmo tempo, encontrando o Menino do tamanho e com a idade que lhe correspondia (pois não tinha mais do que três dias). Prostraram-se diante dele, oferecendo-lhe o ouro, o incenso e a mirra. O Menino aceitou tudo aquilo e em troca ofereceu-lhes um cofrezinho fechado. Os Reis Magos voltaram aos respectivos países” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 58-59).
Logo a seguir foi o segundo Rei Mago, que era de meia-idade, e certificou-se do mesmo; aumentava a surpresa deles.
Finalmente foi o terceiro rei, que era o mais velho dos três, e sucedeu-lhe aquilo que tinha sucedido aos outros. Ficaram muito pensativos. Quando se reuniram, contaram uns aos outros o que tinham visto e maravilharam-se todos.
Decidiram, então, ir os três ao mesmo tempo, encontrando o Menino do tamanho e com a idade que lhe correspondia (pois não tinha mais do que três dias). Prostraram-se diante dele, oferecendo-lhe o ouro, o incenso e a mirra. O Menino aceitou tudo aquilo e em troca ofereceu-lhes um cofrezinho fechado. Os Reis Magos voltaram aos respectivos países” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 58-59).
Os Magos são o “Cristo tripartido”.
Nessa “genealogia mitificada e idealizada” da tradição oriental, eles são
associados a Preste João, que assim descenderia do próprio Cristo (FRANCO JR.,
1994). Mas e Frederico? Onde se insere nessa tradição mitológica que vai de
Cristo a Preste João, passando pelos três Reis Magos?
Sua ligação é de reconhecimento,
diplomático, real e imperial. A ele, ao imperador bizantino e ao papa Preste
João se dirige. Frederico, através de seu tio Oto de Freising, traz o mito para
si, como os reis magos e Carlos Magno, como força espiritual em sua luta por um
império à frente dos demais reinos da Europa.
Assim, Frederico se colocava na condição
de maior representante da Cristandade, único digno de trocar correspondência
com o descendente direto de Cristo. Estava dessa maneira acima de Alexandre III
ou de qualquer outro que estivesse no cargo de Sumo Pontífice.
Frederico também cercou-se de provas
materiais. Quando da tomada de Milão, que nos referimos anteriormente, o
imperador se apossou das relíquias dos reis magos, que se encontravam na
cidade. Transferiu-as para Colônia, cidade alemã que também possuía muitas
relíquias (FRANCO JR., 1994).
Paralelamente, promoveu a canonização
de Carlos Magno (embora Carlos Magno não tenha sido santificado, foi incluído
no rol dos bem-aventurados em 1165, isto é, aquele que desfruta após a
morte uma felicidade celestial eterna. De qualquer modo, é o primeiro passo
para a sua canonização). Assim, isso não significa um fracasso nas intenções de
Frederico: seu projeto de ter um antepassado real “santo” foi realizado. Foi
uma forma de aumentar seu prestígio e sua aura sacrossanta, através de um
antecessor glorioso alçado à santidade. Esse “processo santificatório” só pôde
ser levado a cabo pela falsificação de Oto de Freising.
No fim de sua vida reconciliou-se com
Roma. A morte de Urbano III em 1187 facilitou as coisas; Gregório VIII (de
Benevento, 1187) e Clemente III (romano, 1187-1191) mostraram-se amistosos com
esse novo aliado na luta contra o Islã (RUNCIMAN, 1973: p. 23-24).
Sua inesperada morte a caminho da
Palestina para a Terceira Cruzada, afogado — um rude golpe tanto para seus
seguidores cruzados quanto para todo o mundo franco (RUNCIMAN, 1973: p. 28) —
aumentou as lendas que cercaram sua figura. Para muitos Frederico não havia
morrido; estava adormecido na montanha Kyffhauser, na Turíngia, pronto para
voltar e trazer a glória do Sacro Império de volta. Uma lenda afirmava que
podia-se ver a longa barba de Frederico crescendo através do mármore que o
cobria. Um dia ele despertaria e faria de novo o Império ordeiro e poderoso. É
interessante observar que a construção da imagem de Frederico como um unificador
alemão não corresponde à realidade, pois o imperador fez grandes concessões
senhoriais aos nobres alemães.
Foi nesse contexto político que
“surgiu” historicamente Preste João. A Europa o recebeu de braços abertos; em
pouquíssimo tempo o mito ultrapassou a corte germânica para assumir as mais
variadas texturas, até se deslocar para a África.
III. Marco Polo e o Preste João
Mas antes que passemos da Ásia para a
África, é necessário mostrar por que o mito mudou geograficamente de posição.
Consideramos o testemunho de Marco Polo essencial para delimitar esse marco.
Em seu livro já citado, Polo confirma a
existência de Preste João na Ásia. Chegando a Karakorum, “cidade de três milhas
de circunferência” na planície de Tangut, Polo relata que o povo que vivia
nessa região, os tártaros, não tinham rei, mas pagavam tributo a um senhor
(Cã):
E era este o Prestes João, de quem
falavam todos, no grande Império. Os tártaros davam-lhe uma renda de dez
cabeças de gado (o dízimo). Mas o povo multiplicou-se, e, quando isto viu, o
Prestes João decidiu dividi-lo por várias regiões, e enviar, para governá-las,
alguns dos seus barões.
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 92).
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 92).
Nesta narrativa, Preste João governava
um império de muitos povos. Os tártaros se recusaram a obedecer suas
determinações; declararam-se revoltados, emigraram “para outro deserto” e
elegeram seu próprio rei, Gêngis Cã.
Quando se sentiu suficientemente
fortalecido, Gêngis enviou emissários a Preste João, pedindo-lhe sua filha como
mulher. Este, ofendido, expulsou os mensageiros, dizendo-lhes: “Dizei ao vosso
povo que o condeno à morte por ser traidor e desleal, e por ter a audácia de
pedir a filha do seu senhor para mulher, e que eu o farei morrer de morte
afrontosa” (MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 93).
Preste João considerava Gêngis Cã um
vassalo e, portanto, indigno de ser seu genro. O Cã organizou um exército para
o combate “na grande planície chamada Tangut, que pertencia ao Prestes João, e
ali aparelhou os seu cavalos, e eram tantos os homens que não podiam contá-los”
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 94). Após uma consulta
astrológica com dois cristãos — onde o Cã soube de sua vitória — deu-se o
combate:
Durante dois dias, as duas hostes
inimigas bateram-se duramente. E foi batalha maior e mais encarniçada que
jamais viu o gênero humano. Houve grandes perdas, duma parte e doutra, mas
afinal venceu Gêngis Cã esta batalha, na qual morreu Prestes João (...)
Contei-vos como os tártaros elegeram o seu primeiro grã-senhor e como venceram
Prestes João. Agora falarei dos seus usos e costumes.
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 95).
(MARCO POLO. O Livro das Maravilhas, p. 95).
Sem dor, sem lamentação. Assim Polo
narrou a morte do mito, esperança última da Cristandade na luta contra o Islã.
Por que?
Polo é um homem novo num tempo ainda
antigo. Está colocado na curva, virada de um tipo de mentalidade. Seus olhos
estão direcionados para a frente, para a troca, o comércio. O mito faz parte do
passado, é intransigente e unilateral. Polo representa a multiplicidade, os
dois mundos interagindo: é a alavanca para o desenvolvimento, afinal é
veneziano...
Quando Polo “mata” o mito, está
contribuindo para essa transposição geográfica: na verdade, as pessoas ainda
desejavam que Preste João existisse, o Ocidente ainda tinha como sinal
paradigmático a cruzada.
A Europa ainda estava sendo pressionada
militarmente pelo Islão, principalmente em suas áreas limítrofes: o Império
Bizantino e a Península Ibérica (que então estava no auge de seu processo de
Reconquista). Preste João ainda era a esperança da abertura de uma segunda
frente. Provavelmente por isso a sua transferência geográfica para a África.
O mito então se deslocou da Ásia para a
África no século XIV, mais precisamente para a Etiópia. Segundo Mollat (1990,
p. 35), o primeiro a situar seu reino “ao sul do Egito” foi o cartógrafo
genovês Angelino Dulcert. O desconhecimento europeu em relação ao reino etíope,
devido ao não-mapeamento das fontes do Nilo (porque por terra havia o Deserto
do Sudão e o Maciço Etíope) também criava um clima propício ao desenvolvimento
de lendas maravilhosas.
Conta uma delas que Makeda era a rainha
de Sabá (Etiópia). Sabá seria o Reino de Aksum, mais tarde o Império da
Etiópia, que ocupava o sudoeste da península arábica (KI-ZERBO, s/d: p. 116).
No entanto, a rainha de Sabá foi provavelmente a soberana de uma das colônias
sabéias existentes na Arábia do Norte (A Bíblia de Jerusalém, p. 525).
Portanto, não se considera hoje que Sabá correspondesse a Aksum.
De qualquer modo, maravilhada com as
preciosidades trazidas do reino de Salomão por um mercador, a rainha de Sabá
resolveu fazer uma visita pessoalmente:
A rainha de Sabá ouviu falar da fama de
Salomão e veio pô-lo à prova por meio de enigmas. Chegou a Jerusalém com
numerosa comitiva, com camelos carregados de aromas, grande quantidade de ouro
e de pedras preciosas (...)
Quando a rainha de Sabá ouviu toda a sabedoria de Salomão (...) ficou fora de si e disse ao rei: “Realmente era verdade quanto ouvi na minha terra a respeito de ti e da tua sabedoria (...) Felizes das tuas mulheres, felizes destes teus servos, que estão continuamente na tua presença e ouvem a tua sabedoria (...)
O rei Salomão ofereceu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou e pediu além dos presentes que lhe deu com munificência digna do rei Salomão (o grifo é nosso). Depois ela partiu e voltou para sua terra, ela e seus servos” (1 Rs, 10, 1-13).
Quando a rainha de Sabá ouviu toda a sabedoria de Salomão (...) ficou fora de si e disse ao rei: “Realmente era verdade quanto ouvi na minha terra a respeito de ti e da tua sabedoria (...) Felizes das tuas mulheres, felizes destes teus servos, que estão continuamente na tua presença e ouvem a tua sabedoria (...)
O rei Salomão ofereceu à rainha de Sabá tudo o que ela desejou e pediu além dos presentes que lhe deu com munificência digna do rei Salomão (o grifo é nosso). Depois ela partiu e voltou para sua terra, ela e seus servos” (1 Rs, 10, 1-13).
O final dessa passagem bíblica permite
uma aproximação com a tradição apócrifa: Makeda é seduzida por Salomão, dá a
luz um filho chamado Menelike, que será sagrado rei por Salomão “e voltará com
um grupo de jovens notáveis à Etiópia, não sem terem subtraído a arca da Santa
Aliança, para a honrarem em África” (KI-ZERBO, s/d: p. 116). Assim se inicia
uma dinastia salomônica na Etiópia, conferindo-lhe uma condição mítica que
desembocará na lenda de Preste João no século XIV.
No século IV o reino etíope de Aksum se
converteu ao cristianismo pelas mãos de Fromentius, monge sírio sagrado bispo e
chefe espiritual da Etiópia por Santo Atanásio, patriarca de Alexandria
(KI-ZERBO, s/d: p. 118). Atanásio havia afirmado que a humanidade de Cristo
estava absorvida na sua divindade — proposição de unidade da natureza de Cristo
(monofisismo) — e foi condenado pelo Concílio de Calcedônia (451). A Igreja
etíope é, portanto, herética e cismática, seguindo o rito litúrgico e o
calendário copta egípcio, além de certos costumes sincréticos, como, por
exemplo, “danças arrebatadas, tambores, sacrifícios de cabras (...) interdição
de entrar na igreja no dia seguinte a relações sexuais e a observação do sábado
em vez do domingo resultam da prática judaica” (KI-ZERBO, s/d: p. 118).
É mais uma aproximação com a lenda de
Preste João, que também era herético (nestoriano) e maravilhoso.
IV. Preste João na África
O avanço do Islão chegou a Etiópia.
Alguns companheiros de Maomé, fugindo
da aristocracia coraixita (originalmente da tribo dos Quraish, do norte da
Arábia, uma importante comunidade comercial de Meca. LEWIS, 1990: p. 40-41),
refugiaram-se em Aksum, em 615, instigados pelo próprio Profeta, que teria lhes
assegurado: “Se fordes para a Abissínia (...) encontrareis um rei sob o qual
ninguém é perseguido. É uma terra de justiça, onde Deus trará o repouso às
vossas tribulações” (KI-ZERBO, s/d: p. 152).
Nessa tradição, a Etiópia também é a
terra das maravilhas, como na descrição do reino de Preste João. Mas a
pirataria etíope no Mar Vermelho e suas razias nas costas árabes (os etíopes
pilharam Jeddah, porto de Meca, em 702) levaram o Profeta, segundo outra
tradição, a dizer: “Evitai toda a querela com os Etíopes, porque eles receberam
em herança nove décimos da coragem da humanidade” (KI-ZERBO, s/d: p. 153).
É mais uma oralidade que ajuda a
conexão com Preste João: agora, os etíopes são os inimigos dos árabes,
portanto, amigos da Cristandade. O início da dinastia Zagwés no século XII não
interromperia o caráter maravilhoso da Etiópia iniciado desde a visita da
rainha de Sabá a Salomão: segundo alguns autores, esta dinastia seria uma
descendência salomônica por via de Balkis, uma das criadas de Makeda, rainha de
Sabá (KI-ZERBO, s/d: p. 155).
Assim estava preparado o terreno para a
chegada do reino de Preste João direto da Ásia. Principalmente porque a Etiópia
já possuía seu santo católico: Lalibela, da dinastia zagwé, rei piedoso que
fundou inúmeros igrejas e mosteiros (KI-ZERBO, s/d: p. 153).
Após a geografização do maravilhoso
feita pelo cartógrafo genovês Angelino Dulcert, temos notícia do encontro em
Nápoles de um dominicano de origem siciliana, Pedro Ranzano, com um embaixador
do soberano etíope negus, de nome Pedro Rambulo. O título oficial do
imperador era Rei dos Reis (Negusa nagast), que se explicava pelo grande
número de príncipes da periferia do império que reconheciam-lhe laços de
vassalagem. Tais laços eram freqüentemente consagrados através do casamento do
rei etíope com princesas árabes, em detrimento da monogamia cristã. Embora essas
princesas fossem obrigadas a converter-se, aconteciam casos de regentes filhas
de príncipes muçulmanos, como, por exemplo Helena, princesa que recebeu uma
delegação portuguesa em 1520. A parte central do império estava sob a
autoridade absoluta dos negus (KI-ZERBO, s/d: p. 229).
Este embaixador estava em missão junto
ao rei de Aragão, em 1450. Afirmou que seu rei era o verdadeiro Preste João,
descendente direto da rainha de Sabá, e que seu reino havia sido evangelizado
pelo apóstolo Tomás (MOLLAT, 1990: p. 37).
Além de transferência geográfica,
percebe-se aqui outro elemento mítico: o nome Preste João começa a se tornar um
título, intemporal. Assim, o “nome se pereniza (...) mais conveniente para a
lenda” (BRAGA JR., 1994: p. 20). Preste João é sempre um rei, sacerdote, chefe
religioso, inimigo do Islã (pelo menos em teoria).
A Europa receberia muitos embaixadores
etíopes a partir de então, mas nenhum com descrição tão precisa quanto Ranzano.
As relações tornaram-se mais sólidas com a fundação do Colégio Etíope, em 1474,
pelo papa Sixto IV (de Savona, 1471-1484) e duas missões de Battista d’Imola
(em 1482 e 1484) (MOLLAT, 1990: p. 37).
V. A “morte” do Mito
No tempo do rei Lebna Denguel (Incenso
da Virgem) (1508-1540) (KI-ZERBO, s/d: p. 57), a regente Helena, uma princesa
muçulmana convertida, mandou um mensageiro a Portugal, Mateo, o Armênio,
durante uma série de escaramuças do reino etíope com as potências islâmicas da
costa. Uma embaixada portuguesa foi enviada em 1520. No entanto, parece que os
portugueses foram acolhidos sem entusiasmo, pois Lebna Denguel teria ficado
decepcionado com os magros presentes provenientes da Europa. Ainda, quando lhe
mostraram num mapa o pequeno Portugal em comparação com seu reino (cuja
extensão era exagerada por causa das técnicas de representação cartográfica),
Lebna Denguel encheu-se de orgulho e ficou consternado com o fato dos reinos
cristãos recorrerem às armas. De qualquer modo, aceitou ceder Massawa como base
naval a Portugal e prometeu a sua aliança contra os Muçulmanos. Por sua parte,
pediu artesãos e médicos (KI-ZERBO, s/d: p. 57).
Na embaixada portuguesa encontrava-se
Francisco Alves, padre e e capelão. Devemos a ele a primeira descrição do Preste
João. Ele foi o primeiro cristão a "ver", e, por consegüinte,
"matar" o mito:
Se abriram as cortinas e subitamente
vimos o Preste João, ricamente adornado sobre uma plataforma de seis degraus.
Tinha em sua cabeça uma grande coroa de ouro e prata. Uma de suas mãos apoiava
uma cruz de prata (...)
À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...)
Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é.
(MOLLAT, 1990: p. 39).
À sua direita, um pajem apoiava uma cruz de prata bordada em forma de pétalas (...) O Preste João usava um belo vestido de seda com bordados de ouro e prata e uma camisa de seda com mangas largas. Era uma bela vestimenta, semelhante a uma batina de um bispo, e ia de seus joelhos até o chão (...)
Sua postura e seus modos são inteiramente dignos do poderoso personagem que é.
(MOLLAT, 1990: p. 39).
O surgimento do mito é uma
correspondência mental com a realidade. O mito é uma das formas da consciência
humana, “o exame dos mitos ilumina a estrutura dessa consciência” (MORA, 1982:
p. 266). Sua efervescência mostra uma tomada de atitude, sua aceitação aponta
em direção do anseio coletivo, personificação do fabuloso na forma do reino
imaginário, distante e inatingível. Sua inexistência física amenizava os
desgastes dos personagens concretos, talvez por isso “seu conteúdo mítico e sua
longa duração” (FRANCO JR., 1994).
Acreditar em Preste João foi, para o
homem dos séculos XII-XV, a esperança da cruzada, um motivo para permanecer
lutando, reconquistando. É esse espírito belicoso que sempre insiste em
renascer de nossas entranhas, mesmo com todo o racionalismo delirante que
cresce, século após século. É parte de nós.
*
Fontes
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.
Carta do Preste João das Índias.
Versões Medievais Latinas (trad. Leonor
Buescu). Lisboa: Assírio & Alvim, 1998.
GABRIELI,
Francesco (selected and translated). Arab historians of the crusades. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1984.
MARCO POLO. O Livro das Maravilhas.
Porto Alegre: L & PM, 1994.
Bibliografia
BRAGA JR. Elói. "Introdução". In: MARCO POLO. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.
BRAGA JR. Elói. "Introdução". In: MARCO POLO. O Livro das Maravilhas. Porto Alegre: L & PM, 1994.
CAHEN, Claude. Oriente Y Occidente
en tiempos de las cruzadas. México: Breviarios, Fondo de Cultura Económica,
1989.
DUFFY, Eamon. Santos &
Pecadores. História dos Papas. São Paulo: Cosac & Naif, 1998.
FRANCO JR., Hilário. As utopias
medievais. São Paulo: Editora Brasiliense, 1992.
FRANCO JR., Hilário. A construção de
uma utopia: o império de Preste João. Conferência proferida em 12-10-94
durante o I Simpósio Internacional de História Antiga e Medieval e VI Simpósio
de História Antiga, 10 a 14 de outubro de 1994, Porto Alegre (notas pessoais).
KI-ZERBO, Joseph. História da África
Negra I. Viseu: Publicações Europa-América, s/d.
LEWIS, Bernard. Os Árabes na
História. Lisboa: Editorial Estampa, 1990.
LOYN, Henry R. (org.). Dicionário da
Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990.
MEIER, John P. Um judeu marginal —
repensando o JESUS histórico. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992.
MOLLAT, Michel. Los Exploradores del
siglo XIII al XVI — primeras miradas sobre nuevos mundos. México: Fondo de
Cultura Económica, 1990.
MORA, José Ferrater. Dicionário de
Filosofia. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982.
RUNCIMAN, Steven. Historia de las
Cruzadas II. Madrid: Alianza Universidad, 1973.

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